
Em 1996, a suposta aparição e captura de um extraterrestre fez famosa a cidade de Varginha, na região sul de Minas Gerais. O caso, que ficou conhecido como Incidente em Varginha, ganhou ares de teoria da conspiração, já que as autoridades sempre negaram tudo. Marcos Fernandes Cuzziol e Odair Gaspar, que haviam aberto a Perceptum com a ideia de desenvolver jogos de temática nacional, enxergaram a oportunidade perfeita para colocar seu plano em prática.
"Incidente em Varginha" foi lançado em 1998 e ficou marcado como a primeira produção elaborada de um game no país. Na época, eram raras as iniciativas de desenvolvimento de jogos por aqui, e certamente nenhuma conseguiu tanto marketing, espontâneo ou não, quanto o shooter que mexeu com o imaginário em torno da misteriosa história dos extraterrestres.
Em uma época na qual "Half-Life" começava a dar as cartas no gênero de ação em primeira pessoa, "Incidente em Varginha" pode não ter causado grande impacto pela qualidade técnica, mas envolveu um detalhado trabalho de pesquisa e colocou o jogador em pleno centro de São Paulo e até na estação Sé do Metrô, diferenciais que chamaram a atenção da mídia e do público.
Porém, o game seria "vitimado" pelo mesmo problema que, anos depois, prejudicaria também a Continuum, com "Outlive": a distribuição. No Brasil, o esquema precário relegou o jogo a reles 2.000 cópias vendidas nas prateleiras, performance pelo menos dez vezes inferior à obtida no exterior, onde foi comercializado com nomes como "Alien Anarchy" e "Misión Alien".
A Perceptum ainda tentou produzir "Incidente em Varginha 2: Sombras da Verdade", cujos gráficos eram bem interessantes para a época, mas não conseguiu financiar o projeto. Hoje, a empresa ainda está aberta e faz pequenos projetos, mas seus sócios já se dedicam a outras profissões. Um deles, Marcos Cuzziol, concedeu a seguinte entrevista ao UOL Jogos:
UOL Jogos: "Incidente em Varginha" foi feito por uma equipe reduzida, utilizava um tema nacional, era ambientado em cidades brasileiras e concorria com pesos pesados do gênero. De onde, afinal, surgiu essa ideia maluca de desenvolver algo assim?
Marcos Cuzziol: Mesmo antes de fundar a Perceptum, Odair [Gaspar, sócio de Cuzziol na Perceptum]e eu sempre achamos que existia algo muito importante na linguagem dos videogames, algo que ia além da mera diversão. O processo de produzir um videogame era bastante complexo (hoje, ainda mais) e queríamos dominá-lo por uma razão simples: produzir games com temática nacional. O desafio de desenvolver algo assim já seria suficiente para justificar o trabalho, mas parecia-nos importante também colocar um pouco de cultura brasileira numa linguagem nova e ainda pouco compreendida.