Moradora de Paulínia, Débora Rodrigues, que escreveu "perdeu mané" na Estátua da Justiça, em frente ao STF, em manifestação em Brasília, decreve fase nos presídios paulistas como "inferno pessoal", fala sobre arrependimento e vive sob medidas cautelares durante prisão domiciliar.
A cabeleireira, de 40 anos, condenada a 14 anos por envolvimento nos atos de 8 de janeiro de 2023, revelou detalhes de sua experiência durante mais de dois anos em unidades prisionais do Estado de São Paulo.
Em abril de 2026, Débora concedeu suas primeiras entrevistas após sair do regime fechado, relatando os horrores da prisão e o impacto na sua família. Em relato recente, ela classificou o período como um “inferno pessoal”, marcado por condições insalubres e tensão constante no convívio com outras detentas.
Segundo Débora, as celas apresentavam condições precárias de higiene, com forte odor de fezes, urina e cigarro. Ela também relatou a presença de piolhos e dificuldades de acesso a água limpa, descrevendo situações em que o líquido disponível estava contaminado ou impróprio para consumo.
A prisão ocorreu em 17 de março de 2023, em Paulínia, durante uma ação da Polícia Federal. Débora foi identificada como uma das participantes dos atos que culminaram na depredação de prédios públicos em Brasília, incluindo o Supremo Tribunal Federal (STF).
O episódio que motivou sua responsabilização direta nos atos foi escrever a frase “perdeu, mané” com batom na Estátua da Justiça, localizada em frente ao STF. O gesto foi amplamente divulgado nas redes sociais e passou a ser utilizado como símbolo de parte dos manifestantes.
Após a detenção, Débora permaneceu em prisão preventiva por cerca de dois anos. Apenas em março de 2025, por decisão do ministro Alexandre de Moraes, ela teve a prisão convertida para o regime domiciliar, com uso de tornozeleira eletrônica.
Durante o período no sistema prisional, a cabeleireira afirmou que inicialmente ocultou o motivo de sua prisão. Segundo ela, chegou a dizer a outras detentas que estava presa por tráfico de drogas, temendo represálias relacionadas ao contexto político do caso.
Mesmo com essa estratégia, Débora relata ter enfrentado ameaças de morte dentro da unidade. Ela também descreveu episódios de hostilidade, especialmente por parte de presas com posicionamentos políticos divergentes.
Outro desafio citado foi o isolamento emocional. Em diversos momentos, afirmou ter ficado dias sem contato com familiares, o que agravou o sofrimento psicológico durante o cumprimento da prisão preventiva.
A distância dos filhos foi um dos aspectos mais dolorosos, de acordo com seu relato. As crianças, atualmente com 11 e 8 anos, teriam demonstrado mudanças comportamentais significativas durante o período de separação.
Débora afirma que, ao reencontrá-los, percebeu sinais de abalo emocional, incluindo tristeza constante e perda da espontaneidade. Segundo ela, o impacto da ausência materna foi profundo no desenvolvimento dos filhos.
Com a concessão da prisão domiciliar, a rotina da cabeleireira mudou, mas continua marcada por restrições. Ela permanece monitorada eletronicamente e deve cumprir regras rigorosas estabelecidas pela Justiça.
Entre as limitações, está a impossibilidade de exercer sua profissão. Débora afirma que não pode atender clientes nem retomar sua atividade como cabeleireira, o que afeta diretamente sua renda e autonomia.
Além disso, ela relata receio constante de violar, mesmo que involuntariamente, as condições da medida. Segundo seu depoimento, evita ultrapassar o limite do gramado de sua residência por medo de acionar o dispositivo de monitoramento.
A restrição também se estende à vida religiosa. Débora afirma que não pode frequentar cultos presenciais, mantendo sua prática de fé apenas no ambiente doméstico.
Ela aponta a religiosidade como um dos principais fatores que a ajudaram a enfrentar o período de encarceramento. A leitura da Bíblia, segundo diz, foi essencial para manter a estabilidade emocional.
Em relação aos fatos que levaram à condenação, Débora reconhece arrependimento. Ela afirma que não tinha plena dimensão das consequências do ato e que hoje avalia a situação de forma diferente.
A decisão judicial que a condenou foi mantida pelo Supremo Tribunal Federal. Entre os crimes atribuídos estão dano qualificado, deterioração de patrimônio tombado e associação criminosa.
O caso de Débora integra um conjunto amplo de processos relacionados aos atos de 8 de janeiro, que resultaram na invasão e depredação das sedes dos Três Poderes em Brasília.
As investigações conduzidas pela Polícia Federal buscaram identificar e responsabilizar os envolvidos, com base em registros audiovisuais, depoimentos e rastreamento digital.
Condenação
Em abril de 2025, a Primeira Turma do Supremo Tribunal Federal condenou a 14 anos de prisão a cabeleireira. No início do julgamento, os advogados dela afirmaram que receberam o voto do ministro Alexandre de Moraes com “profunda consternação”. Segundo a defesa, a condenação a 14 anos de prisão foi “marco vergonhoso na história do Judiciário brasileiro”.
Reconstrução de vida
Atualmente, vivendo sob monitoramento, Débora afirma buscar reconstruir sua vida dentro das limitações impostas pela Justiça. Ela diz priorizar o convívio com os filhos e a reorganização da rotina familiar. (Cézar Oliveira/Tribuna Liberal)