O avanço do inverno em Campinas trouxe um crescimento progressivo na procura por atendimento médico devido a síndromes gripais e internações por Síndrome Respiratória Aguda Grave (SRAG). Os dados oficiais do Boletim Epidemiológico do município revelam que, de janeiro ao fim de junho de 2026, a cidade já notificou 1.826 casos graves de problemas respiratórios, que resultaram em 95 mortes. O impacto no sistema de saúde mobiliza a rede assistencial, já que quase um terço de todos os pacientes internados com esses quadros (27%) precisou ser transferido para leitos de UTI devido à gravidade da infecção.
O cenário na cidade se torna ainda mais desafiador porque as equipes médicas enfrentam uma circulação simultânea de diferentes ameaças, principalmente a Influenza (gripe), o Vírus Sincicial Respiratório (VSR) e a Covid-19. De acordo com os dados de monitoramento da Prefeitura de Campinas, de cada 100 exames realizados no primeiro semestre, cerca de 9 apontaram que o paciente foi infectado por mais de um vírus ao mesmo tempo, uma combinação que eleva o risco de complicações. A Influenza se consolidou como o vírus mais agressivo em termos de gravidade proporcional, fazendo com que 30% dos seus pacientes fossem parar na UTI. Já o VSR isoladamente responde por 28% de todos os casos graves na cidade, atacando principalmente bebês menores de um ano.
A infectologista do laboratório DMS Burnier, Dra. Maria Kassab, explica que o perigo dessa circulação simultânea exige um olhar atento tanto dos laboratórios quanto dos médicos que recebem esses pacientes. "A presença de mais de um vírus ao mesmo tempo no organismo sem dúvida aumenta o risco de o paciente evoluir para um desfecho clínico desfavorável, mas a comunidade médica precisa avaliar esses resultados com muita cautela. É fundamental analisar o histórico de sintomas e o tipo de teste feito para termos certeza de que há uma dupla infecção verdadeira, eliminando chances de falsos-positivos e garantindo que o tratamento comece de forma rápida e assertiva", afirma.
O principal combustível para esse aumento de internações tem sido a baixa cobertura vacinal, evidenciada por um dado do monitoramento de saúde do município: entre os pacientes que perderam a vida por complicações da gripe na cidade, 80% não tinham tomado a vacina disponível e 98% sofriam de alguma comorbidade. O maior volume de internações e mortes se concentra em idosos acima de 60 anos, enquanto as crianças pequenas são as principais vítimas do VSR.
Para combater os mitos que ainda afastam a população das campanhas de imunização, a Dra. Maria reforça que a proteção precisa ser renovada anualmente por uma necessidade biológica do próprio corpo humano. "Muitas pessoas deixam de se proteger porque acreditam no mito de que a vacina causa gripe, o que é biologicamente impossível porque ela é feita com o vírus totalmente inativado, ou seja, morto. A dose precisa ser tomada todo ano porque a Influenza sofre mutações constantes e muito rápidas, um fenômeno conhecido como deriva antigênica. Isso significa que a imunidade adquirida com a vacina do ano anterior perde a eficácia contra as novas variedades que passam a circular nos postos de atendimento neste inverno", esclarece.
Além da dose contra a gripe, a especialista destaca que a população de Campinas tem à disposição outras ferramentas essenciais de prevenção, como a vacina contra o Pneumococo, que evita a pneumonia bacteriana, uma das principais complicações secundárias, e as novas proteções contra o VSR, que incluem vacinas para gestantes, idosos e pessoas com a imunidade baixa ou doenças crônicas, além de anticorpos para bebês. Essas soluções podem ser encontradas tanto na rede pública quanto em serviços privados de saúde. A orientação final para pais e cuidadores de idosos é monitorar os sinais de alerta, como falta de ar, chiado ou esforço para respirar e saturação abaixo de 90%, buscando imediatamente a realização de exames de diagnóstico laboratorial, idealmente na primeira semana dos sintomas, para garantir a eficácia do tratamento.