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Sexta-feira, 17 de Abril de 2026

Notícias/Direitos Humanos

Silenciada na CIPA: trabalhadora sofre com misoginia e violência de gênero na Replan

Mulheres da refinaria relatam que situações semelhantes não são isoladas

Silenciada na CIPA: trabalhadora sofre com misoginia e violência de gênero na Replan
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Um episódio ocorrido na unidade da Refinaria de Paulínia (Replan), em Paulínia, durante a última reunião da Comissão Interna de Prevenção de Acidentes (CIPA), em 25/02/26, reacendeu o debate sobre misoginia, violência de gênero e silenciamento de mulheres no ambiente de trabalho.

Segundo relatos de participantes, uma trabalhadora utilizava o espaço institucional da CIPA para debater uma denúncia relacionada às condições de trabalho quando foi interrompida de forma reiterada por um dos gerentes da unidade, que havia escutado pacientemente os outros trabalhadores, homens, que haviam falado anteriormente. Testemunhas afirmam que as interrupções ocorreram diversas vezes, impedindo que a exposição dos fatos fosse concluída e comprometendo o direito de manifestação da empregada em um fórum que, por natureza, deveria assegurar escuta ativa, acolhimento e proteção.

Ainda de acordo com os relatos, o presidente da CIPA presente na reunião — também gerente da refinaria — não interveio para garantir que a trabalhadora pudesse concluir sua fala. A ausência de ação provocou questionamentos entre os participantes sobre o cumprimento do papel institucional da comissão, cuja finalidade é justamente promover um ambiente seguro para o relato de riscos, irregularidades e problemas no ambiente laboral.

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Criada pela legislação trabalhista brasileira, a CIPA é um instrumento formal de prevenção de acidentes e doenças decorrentes do trabalho, além de um canal de diálogo entre empregados e empregadores. Especialistas em direito do trabalho apontam que qualquer forma de intimidação, constrangimento ou limitação do direito de fala dentro da comissão pode configurar violação das normas que regem seu funcionamento e, dependendo do caso, caracterizar assédio moral.

O episódio, porém, não se restringe a uma discussão procedimental. Trabalhadores ouvidos pela reportagem avaliam que o caso expõe um problema estrutural: a dificuldade enfrentada por mulheres para terem suas denúncias e opiniões respeitadas em ambientes predominantemente masculinos. A postura de interrupção reiterada e a falta de mediação foram interpretadas como expressão de misoginia e violência simbólica de gênero.

Relatos indicam que, diante do constrangimento, foram proferidas frases como “me desculpe se você se sentiu ofendida” e “eu te conheço há muito tempo, você sabe quem eu sou”, declarações que, na avaliação de especialistas, podem funcionar como mecanismos de invalidação da percepção da vítima sobre a violência sofrida. Esse tipo de discurso desloca o foco do comportamento questionado para a reação de quem denuncia, esvaziando a gravidade da situação.

Para trabalhadores da unidade, o fato de tanto o gerente apontado como responsável pelas interrupções quanto o presidente da CIPA ocuparem cargos de liderança reforça a preocupação com a cultura organizacional. “Quando perfis com esse tipo de postura são indicados para funções de comando, a mensagem transmitida é de tolerância ao machismo, à perseguição e ao silenciamento”, afirmou um empregado que pediu anonimato.

Mulheres da refinaria relatam que situações semelhantes não são isoladas e que, frequentemente, suas manifestações são tratadas com descrédito ou desqualificação, como se suas análises fossem exageradas ou emocionais — estigmas historicamente associados à discriminação de gênero.

O Sindipetro Unificado de São Paulo defende que o episódio seja apurado com transparência, com garantia de proteção à denunciante contra eventuais retaliações. Também cobram o reforço de protocolos que assegurem o direito à fala nas reuniões da CIPA, especialmente quando se trata de denúncias relacionadas à saúde, segurança e integridade no trabalho. (Sindipetro Unificado)

*O texto foi escrito por petroleira que preferiu não se identificar.

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