Esporte? É balada? Nem quem é frequentador sabe responder. A mistura de música com corrida tem agitado ruas pelo Brasil, levando multidões às pistas ao som de eletrônico, funk e axé. As “festas de corrida”, que têm feito sucesso na internet e atraído a atenção até mesmo de praticantes internacionais, são vistas como porta de entrada na modalidade. Mas especialistas alertam que mesmo com o clima festivo, são necessários cuidados como em qualquer prática esportiva.
Em Paulínia, além do eletrônico, o som que embalou os corredores que participaram da primeira edição da Baile Run, em março, foi o funk (foto). O evento que é chamado pelos organizadores de “festa em movimento”, intercala dois quilômetros de corrida com paradas estratégicas para apresentações, com saxofonistas e artistas circenses. O trajeto também é de 5 km e há o after, que nada mais é do que uma festa tradicional.
Foi exatamente a música que fez com que a médica veterinária Pamella Almeida Ribeiro, de 34, se interessasse pela corrida. Ela lembra que depois que as amigas contaram o quanto se divertiram na primeira edição da Baile Run, decidiu começar a treinar e ganhar condicionamento para a próxima edição, que deve ser realizada domingo que vem e que já tem 800 inscritos: "As paradas durante o percurso para dançar me chamaram a atenção".
— Não tem como dizer se é mais festa ou mais esporte. É a mistura perfeita dos dois. É uma celebração da vida em movimento guiada pela música — conta o profissional de educação física e DJ Hatus, fundador da festa e responsável por comandar o som durante o percurso.
Micareteira de carteirinha, a gerente Cristiane Santos, de 39, estreou nas corridas no dia 23 de abril, quando percorreu os 5 km da prova 100% Você, no Aterro do Flamengo, no Rio. A recompensa, além da medalha, foi um show de mais de duas horas do cantor de axé Bell Marques e seus filhos Pipo e Rafa Marques, organizadores do evento.
— Confesso que a proposta da festa foi o que mais me atraiu, mas foi uma experiência incrível. A energia era muito parecida com a de uma micareta, muita animação — lembra ela.
Em abril, a quinta edição da corrida Run & Bass transformou as ruas de São Paulo em uma pista de música eletrônica. O sucesso foi tanto que o DJ americano Diplo, que tem um clube de corrida itinerante nos Estados Unidos com a mesma proposta, comentou num vídeo do evento dizendo que queria correr com eles também. Ao todo, são 5 km de trajeto, embalados por um DJ que segue o grupo em uma bicicleta adaptada, na qual carrega a mesa de mixagem.
O fisioterapeuta Giovani Romera Garcia, de 23 anos, conta que achava a corrida um esporte solitário e monótono antes de conhecer Run & Bass, pela internet:
— Tava passando por uma fase difícil e precisava achar algo que cuidasse da minha saúde e me divertisse ao mesmo tempo. Encontrei um lugar que junta o esporte com o dançar e a conexão com outras pessoas. Nunca mais parei de ir. O grupo se tornou uma família.
Sete horas de som
A corrida dura cerca de uma hora, com algumas paradas para hidratação, e termina em uma grande festa, com mais sete horas de música. Fundador do grupo, o empresário Leonardo Martins Paludo, de 22, conta que já era DJ quando começou a correr e que a ideia do evento veio como uma forma de unir suas duas paixões. Ele atribui o sucesso do evento ao caráter inclusivo.
— Qualquer pessoa consegue participar, independentemente do nível no esporte. Também é um ótimo lugar para conhecer pessoas. Há casos de casais que começaram a namorar por causa da Run & Bass. Esperávamos crescer, mas não tão rápido em um ano. Já fizemos uma edição em Florianópolis, e nosso projeto agora é levar o evento para outros cinco estados.
Micareta fitness
O evento, com percursos de 5 km e 10 km e sempre com o after comandado por Bell Marques, foi criado em janeiro de 2025 e já teve 18 edições, reunindo ao todo 155 mil corredores.
— A prova nasceu da nossa paixão verdadeira pelo esporte e da vontade de incentivar as pessoas a cuidarem da saúde de uma forma leve e prazerosa — resume o cantor.
“Suor descendo, corpo em movimento. Na rua nós esquecemos todo sofrimento”, diz a letra da música feita especialmente para tocar no trio elétrico equipado com um paredão de som colocado à frente do grupo Corre de Quinta. O evento realizado em Manaus, além de músicas autorais, toca uma playlist que vai do funk ao rock. Os registros das corridas de 5 km têm feito sucesso nas redes sociais e impressionado por conta do número de participantes que reúne, tendo já atingido a marca de 20 mil corredores em apenas uma das 13 edições já realizadas.
O fundador, Frank Parente, conta que a repercussão tem feito com que pessoas de outros estados, como Minas Gerais, São Paulo, Bahia e Pernambuco, partam para o Norte só para participar da corrida. O profissional autônomo Rennan Éden da Silva Melo, de 36, já virou frequentador assíduo e conta que conheceu o projeto pelas redes sociais, o que foi suficiente para contagiá-lo.
— Depois que conheci ao vivo, comprovei que o ambiente é surreal. O som alto e as pessoas te apoiando, gritando umas para outras que vamos todos conseguir completar o percurso, fazem total diferença. É muito animado é divertido, além de ser um ótimo lugar para fazer amizades — conta ele, que luta contra a obesidade há um ano e com a ajuda da corrida já perdeu 70 quilos.
Porta de entrada
A avaliação dos profissionais da área é de que o surgimento desse tipo de atividade que mistura música com corrida faz parte de um movimento de expansão da modalidade. Marcos Cunha, diretor técnico da MCP performance, assessoria esportiva voltada para a corrida de alto desempenho, avalia que os eventos podem ser porta de entrada para o esporte, mas que são diferentes de provas tradicionais.
— Toda ação que gere movimento, faça a pessoa sair do sofá e se mexer tem que ser vista como uma ação de saúde pública. Pode fazer com que a pessoa tome gosto pelo esporte e se dedique visando à alta performance, que são provas focadas para desempenho e tempo, como as maratonas — avalia.
Especialista em Medicina do Exercício e do Esporte, o médico João Felipe Franca explica que os eventos, embora pareçam festas, devem ser tratados com seriedade por envolverem atividades esportivas. Exigem cuidados, portanto, como não misturar com consumo de bebida alcoólica ou energéticos.
— O consumo do álcool já faz mal para a saúde por si só, mas isso atrelado ao esporte é completamente inapropriado. A junção aumenta as chances de provocar arritmia cardíaca, ainda mais em ambientes muito quentes e úmidos que aumentam a taxa de sudorese e a perda de água e sais.
Depoimento: ‘Eu me diverti como não imaginava’
Carol Knoploch, blog Correria
carolk@sp.oglobo.com.br
“Não paro de receber mensagens de corredores que querem saber quando a Corrida 100% Você, criada pelo cantor Bell Marques e seus filhos, voltará ao Rio. Não apenas via redes sociais. Mas também no grupo de corrida, na academia, no meu círculo pessoal. É compreensível: o evento foi 100% mesmo.
A corrida foi bem organizada, manteve o astral lá em cima e teve um pós-prova com show animadíssimo, em plena Praia do Flamengo. Eu me diverti como não imaginava com a apresentação de Bell Marques, Rafa e Pipo. Eles cantaram clássicos do carnaval baiano, não apenas do Chiclete com Banana, banda liderada por Bell por mais de três décadas. Eu sabia as letras de cor. Foram mais de duas horas de show. E ninguém parecia cansado.
A turma do “dane-se o pace” não se impõe meta de tempo e tudo bem. Não sente necessidade de correr maratona. Este é um esporte democrático e cresce exatamente por isso. Cada um curte o seu momento e a seu modo.
Fui ao evento para escrever sobre a experiência no meu blog de corrida, que é publicado no "Globo", o Correria. Acompanho os eventos desse universo há algum tempo e percebo que muitos corredores querem isso mesmo: diversão. Não correm de olho no relógio, não têm assessoria. E para estes, que priorizam o pós-prova, a experiência completa, há inúmeras opções.
As corridas que são organizadas à noite são um prato cheio. Têm essa pegada de ser mais balada do que corrida. E mesmo os grandes eventos, como a Maratona do Rio, a maior maratona da América Latina e que será realizada em junho, há espaço para esta turma. Canso de ver corredores de curtas distâncias que, após a linha de chegada, apressam o passo para chegar ao show. (Com informações do jornal "O Globo")