Um projeto de US$ 2 bilhões para produzir combustível sustentável de aviação (SAF) começa a tomar forma no município. A JetBio anuncia nesta segunda-feira (8) a aquisição de um terreno em Paulínia, onde pretende erguer uma biorrefinaria para transformar etanol em querosene verde para aviões.
A JetBio é a subsidiária brasileira da Summit NextGen, braço de combustíveis da americana Summit Agricultural Group — a mesma controladora da FS, hoje uma das maiores produtoras de etanol de milho do país. A escolha do Brasil como base do primeiro grande projeto da companhia não é acidente geográfico. É a tese central do negócio.
“A história é, na verdade, uma história sobre o Brasil e as vantagens que o país tem a partir de matéria-prima de baixa intensidade de carbono”, diz ao Reset William Moore, CEO da JetBio e da Summit NextGen. “Para ser competitivo, você tem que ser o produtor de menor custo com a menor intensidade de carbono. E essa é a vantagem real que o Brasil oferece.”
O conograma prevê início da construção em 2027 e entrada em operação em 2030. O plano é que a fábricade Paulínia tenha capacidade de produzir 1 bilhão de litros por ano, 25 vezes mais que a única planta comercial que hoje produz SAF com álcool como matéria-prima: a unidade Freedom Pines, da LanzaJet, na Geórgia (EUA).
Escala global
Essa Essa escala é deliberada, pois a conversão de etanol em SAF tem um problema de densidade energética, afirma Moore. “É necessário 1,8 litro de etanol para produzir 1 litro de SAF. A maneira de baixar o custo é por economia de escala. Por isso seremos a maior unidade do mundo, e isso é intencional.”
A alternativa tecnológica dominante para a descarbonização dos voos utiliza óleos e gorduras como insumo. Ela é mais barata, mas não será suficiente para a demanda global de SAF.
Os Estados Unidos produzem 60 bilhões de litros de etanol por ano, e o Brasil, 42 bilhões. “Quando você olha o que pode de fato escalar ao nível de volume de SAF que é necessário, [a rota alcohol-to-jet] é a resposta clara”, diz o executivo.
Por que o Brasil
A Summit já planejava uma fábrica de alcohol-to-jet (ATJ) nos Estados Unidos. O projeto Summit NextGen deveria ter chegado à decisão final de investimento (FID, na sigla em inglês) no ano passado, o que não aconteceu.
Moore diz que o projeto americano não foi abandonado, apenas pausado. “Não desistimos daquela unidade. Só estamos focados no Brasil.”
A explicação é dupla. De um lado, há o ambiente regulatório. O governo Trump reduziu créditos fiscais para combustíveis de baixo carbono e privilegia os fósseis.
De outro, a maior parte do etanol americano não tem intensidade de carbono baixa o suficiente para ser transformado em SAF, algo que só projetos de captura e sequestro de carbono devem resolver com o tempo.
“O Brasil deve ser o líder mundial em SAF”, diz Moore. “O país tem uma vantagem clara do ponto de vista de intensidade de carbono, por isso nosso primeiro projeto será aqui.”
A intensidade de carbono da matéria-prima é essencial para determinar o valor do SAF. Usando etanol de milho de segunda safra, o combustível verde seria um dos mais competitivos do mundo, segundo Moore.
Mas a JetBio não vai se prender a uma única matéria-prima. O plano é comprar etanol de milho, de cana-de-açúcar e de resíduos. Esse último é a aposta silenciosa: o etanol de resíduo tem rota regulatória mais fácil nos mercados que impõem restrições a matérias-primas que competem com alimentos.
A planta será “uma das mais complexas do mundo”, nas palavras de Moore. A tecnologia foi desenvolvida pela americana Honeywell, que detém a propriedade intelectual de todas as quatro etapas básicas do processo de conversão e já opera uma usina piloto na Índia.
Financiamento
Para colocar o projeto em pé, a empresa prevê uma divisão de 50% de dívida e 50% de capital próprio — ou seja, US$ 1 bilhão a ser levantado em dívida. As conversas com o BNDES já começaram, segundo Moore, e o programa Eco Invest está no radar.
Do lado do lado do capital, a Summit quer parceiros brasileiros — estratégicos e financeiros. “Acreditamos que, para a JetBio ser bem-sucedida, vamos trazer parceiros brasileiros”, diz o executivo, que credita parte do sucesso da FS justamente à combinação de tecnologia americana com sócios locais, uma fórmula que a Summit Ag vêm aplicando no país desde 2014.
Cerca de 90% da produção é para exportação, com União Europeia e Reino Unido como foco principal. O plano é exportar fisicamente o combustível pelos portos de Santos ou Paranaguá.
Esse transporte tem impacto na conta de carbono do SAF, que inclui todo o ciclo de vida do combustível. Uma solução seria manter o SAF no Brasil e vender apenas os atributos ambientais no exterior, um mecanismo chamado book-and-claim.
“Adoraria que todo o combustível ficasse no Brasil”, diz Moore. “O problema é que esse sistema global ainda não existe.” Pelo menos por enquanto, o plano é embarcar o combustível em navios e transportá-lo até o o consumidor.
Cerca de 5% da produção da fábrica sai como diesel verde ou combustível marítimo sustentável — um produto drop-in, que roda nos motores existentes. Num futuro não tão distante, a JetBio poderia exportar seu próprio SAF em navios movidos pelo combustível que ela mesma produz. “De um ponto de vista de ecossistema de baixo carbono”, diz Moore, “é uma coisa bem legal de imaginar.”
(Sérgio Teixeira Jr./UOL)