No primeiro mês de atividades, o Neccold-Campinas - formado por um delegado, um escrivão, três investigadores e um agente - identificou as empresas utilizadas pelo empresário Eduardo Magrini, conhecido como “Diabo Loiro”, que promoviam a lavagem de dinheiro por intermédio de sócios “laranjas”, empresas do ramo de transporte e uma outra do ramo de rodeio. Foi essa equipe também que identificou 11 endereços onde foram cumpridos mandados de busca e apreensão com objetivo de reunir provas de um suposto relacionamento entre o vereador de Campinas Vini Oliveira (Cidadania) e empresários do ramo do transporte público urbano.
O Neccold-Campinas, que funciona subordinada à Divisão Especializada de Investigações Criminais( DEIC), tem atuação em 38 municípios onde a Polícia Civil é administrada pelo Departamento de Polícia Judiciária do Interior 2 (Deinter-2), em cooperação institucional com o Ministério Público do Estado de São Paulo (MPSP), por intermédio do Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco) e das Forças Integradas de Combate ao Crime Organizado (Ficco) da Polícia Federal (PF). Essas três instituições, com os resultados das investigações do Núcleo, promovem um intercâmbio com apoio técnico e operacional especializado.
“Essa integração inclui o compartilhamento de metodologias e ferramentas de análise financeira e resulta na elaboração de operações para enfrentamento ao crime”, explica o delegado Luiz Fernando Dias de Oliveira, designado para comandar essa equipe.
LAVAGEM DE DINHEIRO
A equipe que trabalha em Campinas está realizando investigações estratégicas de infrações penais relacionadas à criminalidade organizada e à lavagem de dinheiro. A partir do resultado das investigações é aberto inquérito policial e demais procedimentos de investigação criminal. “O Neccold-Campinas está atuando na recuperação de ativos ilícitos, por meio de apoio, subsídio e representação por medidas assecuratórias de natureza patrimonial, como sequestro, arresto e bloqueio de ativos financeiros e criptoativos”, explica o delegado.
Os policiais ocupam salas com equipamentos de informática para produzir, analisar e difundir conhecimento estratégico, operacional e tático, além de integrar bases de dados. O trabalho também inclui o monitoramento dos resultados relacionados a bloqueios, apreensões, alienações, perdimentos e reversão social de ativos. “Estamos sufocando o esquema de lavagem de dinheiro da organização criminosa por todos os caminhos”, disse o delegado.
PRIMEIRA OPERAÇÃO
A “Operação Caronte”, realizada dia 8 de maio, foi o primeiro trabalho decorrente da atuação do Neccold-Campinas que identificou o esquema de lavagem de dinheiro da facão criminosa no ramo de rodeio. As investigações identificaram que “Diabo Loiro”, que está preso, estabeleceu vínculo com as empresas ligadas a organização de festas do peão e competição de touros. E que o grupo movimentava recursos ilícitos por meio de uma empresa do ramo musical. O touro “Império”, terceiro mais ranqueado no Brasil, foi comprado pelo grupo como forma de lavar o dinheiro. A Justiça decretou o bloqueio de R$ 10 milhões das contas dos investigados.
No dia 3 deste mês, o Gaeco utilizou um relatório de investigações elaborado pelo Neccold-Campinas para cumprir 11 mandados de busca e apreensão, com o objetivo de coletar provas que contribuam para as investigações que apuram se houve pagamento e consequente recebimento de vantagens indevidas por parte do vereador Vini Oliveira durante uma visita e reunião que ele fez na sede de uma empresa de transporte de ônibus, situada em Paulínia. A Operação resultou na apreensão de documentos, anotações, pen drives, dinheiro em espécie e aparelhos celulares, dentre os quais do vereador, de seu chefe de gabinete, bem como dos empresários ligados à pessoa jurídica, todos presentes na reunião divulgada, os quais deverão ter seu conteúdo analisado.
“Nosso trabalho é atuar em todas as frentes que necessitem um trabalho de inteligência digital. Estamos preparados para realizar investigações estratégicas de infrações penais relacionadas à criminalidade organizada e à lavagem de dinheiro”, explica Dias de Oliveira.
“O enfrentamento ao crime organizado exige atuação integrada, inteligência policial e investigação financeira. A criação desse núcleo amplia a capacidade do estado de identificar estruturas criminosas, rastrear recursos obtidos de forma ilícita e apoiar operações em diferentes regiões. A medida fortalece a atuação das forças de segurança no combate às organizações criminosas e na recuperação de ativos ligados ao crime”, disse o secretário da Segurança Pública de São Paulo, Osvaldo Nico Gonçalves.
Segundo o delegado-geral da Polícia Civil no estado, Artur José Dian, o uso de ferramentas tecnológicas e a criação de indicadores buscam à descapitalização de organizações criminosas. “A medida reforça a estratégia de atuação integrada das forças de segurança no combate às estruturas financeiras ligadas ao crime, ampliando a capacidade de investigação e recuperação de recursos obtidos de forma ilícita”, afirmou.
Os mecanismos criados pelo crime organizado para lavar o dinheiro ilícito foi tema, na semana passada, do Seminário Internacional 2026 – Mercados Sitiados: Crime Organizado Transnacional e a Ascensão das Economias Ilícitas nas Américas, realizado na Universidade de São Paulo (USP), na capital paulista.
“A lavagem de dinheiro é facilitada por uma verdadeira ‘arquitetura habilitadora’ e por sistemas paralelos de transferência de valores. Além disso, esbarramos na falta de vontade política para a fiscalização, o que gera inação e sustenta as redes que viabilizam esses crimes. O ponto crucial é como engajamos o setor privado e o mercado financeiro nessa responsabilidade. Precisamos de uma abordagem muito mais ampla e aprender com os casos mais recentes”, avaliou David M. Luna, fundador da International Coalition Against Illicit Economies (ICAIE), um dos palestrantes.
Os especialistas que participaram dos debates, alertaram que organizações criminosas têm ampliado sua atuação em diferentes setores da economia, utilizando mecanismos cada vez mais sofisticados para geração de receita, lavagem de dinheiro e expansão de sua influência.
O general Juan Carlos Buitrago, ex-oficial da Polícia Nacional da Colômbia, alertou para o avanço do crime organizado sobre esse mercado e afirmou que “o comércio de produtos se converteu na principal modalidade de lavagem de dinheiro do crime organizado”.